Virgínia Costabile  -  atriz e arte-educadora      virginia_costabile@hotmail.com
 

 

Quero deixar registrado aqui meu encontro com o cordel e o quanto está sendo valioso, não só para mim, mas para as comunidades em que atuo como arte-educadora. Trabalhando com teatro na periferia de São Paulo¸ olhava para as crianças e jovens e os via caindo em armadilhas massificantes: vivendo na metrópole em meio ao lixo, ao lixo dos valores avessos, sonhando com a cidade reluzente e inatingível. Me perguntava constantemente o quê e como trabalhar com essas pessoas e claro recebi muitos conselhos como trabalhar com técnicas de interpretação ou ainda com textos clássicos sob o pretexto de que era preciso "dar cultura" ao povo. Era como se me pedissem que contasse a eles "estórias pra boi dormir" pois acredito que o trabalho do educador não é construído na base de fórmulas, como se nada existisse antes do contato com o educador. O mínimo que eu podia fazer por nós era mergulhar de alguma forma na cultura desse povo, no mínimo 90% constituído de nordestinos. Fui ouvindo histórias pessoais, conhecendo um pouco dos gostos de gente muito sofrida desde cedo. Até que veio a palavra mágica, alentadora: Cordel . Folhetos, livros, internet teorias e... enfim a salvadora oficina no SESC Pompéia de literatura de cordel. A princípio o medo, como se estivesse me apropriando indevidamente deste universo, depois o encantamento, a possibilidade de escrever, de falar aos "meus meninos", que contra-senso, dos imensos valores da cultura deles! Agora abriu-se um caminho concreto de trabalho, muito prazeroso e aos poucos eles sentem-se revalorizados.Cordel, repente e essa cantoria toda sorrindo para nós, e ao vivo, como na estória da "Velhota Fofoqueira" onde o César, extremamente generoso, contou para a Virgínia, que contou para o Marisvaldo ,que contou para o Hermes que contará para muitos outros.