Entrevista para o site da Editora Moderna

retirada, em 25/11/2007, do link http://literatura.moderna.com.br/moderna/literatura/apoio-ao-professor/entrevistas/cultura-popular-brasileira?id_titulo=10018661

 

Cultura Popular Brasileira

Ed. Moderna - Em Agosto comemora-se o folclore, qual a importância da cultura popular na nossa sociedade?
R: César Obeid - A cultura popular está presente no dia-a-dia de todos nós. Ela é vivenciada espontaneamente em diversas camadas sociais e nos mostra o perfeito retrato da nossa comunidade, pela ótica da maioria. O que pode ser mais importante do que a voz do povo?


Ed. Moderna - Como a cultura popular pode interferir na formação do cidadão?
R: César Obeid - Tendo como base a estruturação familiar e social, a cultura popular promove um encontro comunitário e isso é muito rico para a formação do cidadão neste contexto totalmente globalizado e massificado em que vivemos. Eu gosto de dizer que viver uma manifestação de cultura popular é sentir o cheiro da casa da avó; não tem nada mais gostoso.


Ed. Moderna - A cultura popular "está se perdendo" ou é a falta de identidade que está nos aproximando cada vez mais de outras culturas e nos distanciando das raízes?
R: César Obeid - Nunca, claro que não! As manifestações de culturas populares (alguns pesquisadores preferem usar o termo no plural) cada vez mais estão sendo foco de interesse, estudo e prática. Muitas vezes, o mesmo jovem que passa horas no video game, participa de uma congada ou catira. É por isso que aconselho não usar o termo "resgate", senão vamos pensar que todas as culturas tradicionais morreram.


Ed. Moderna - Sabemos que você escreveu o livro Minhas Rimas de Cordel. Gostaria que explicasse como é o processo de produção de um folheto de cordel?
R: César Obeid - No meu caso, o processo de produção de um folheto é muito diferente de um livro. Os folhetos de cordel que eu faço são para ocasiões específicas (empresas, treinamento, eventos etc.) Nesse caso, eu uso versos descritivos obedecendo ao tema de interesse. Já no caso dos livros (Minhas Rimas de Cordel e O Cachorro do Menino) eu utilizo histórias com enredos e personagens. Eu gosto dos dois estilos. Também penso que um livro tem uma vida útil muito maior do que um folheto. Atualmente estou produzindo diversos folhetos de cordel com temas que acho de extrema importância para a sociedade como por exemplo, doação de sangue e alimentação vegetariana)


Ed. Moderna - De que forma é feita a composição poética?
R: César Obeid - A literatura de cordel utiliza muito a sextilha, que são estrofes de seis versos, onde apenas os versos pares rimam, os ímpares não. Acho que é a modalidade que eu mais utilizo também. Também escrevo muito em sete versos (como uma sextilha, mas o quinto verso, rima com o sexto também.)


Ed. Moderna - Quais são os temas mais freqüentes na literatura de cordel e as ilustrações em xilogravuras são importantes para o contexto dos versos?
R: César Obeid - Ótima pergunta! Fico tão triste quando vejo nos sites e livros por aí uma classificação dos temas do cordel que não corresponde mais a realidade atual da manifestação. Falar que o cordelista ainda hoje só escreve sobre as façanhas de Padre Cícero, Getúlio Vargas e Lampião é realmente enterrar o cordel! O que quero dizer que são assuntos ainda abordados, mas não limitados a eles. Cada poeta escreve o que ele quiser! Se eu te perguntasse "Quais os temas mais freqüentes no teatro ou no conto?" Alguém saberia dizer? Claro que não. E no cordel é assim. Pode ser a vida do homem sertanejo, algum fato ocorrido, alguma história inventada, uma poesia, etc. As xilogravuras ilustram as capas dos folhetos e também de alguns livros. É uma técnica tradicional que hoje é preservada pelos poetas, mas é bom lembrar que um folheto pode estar sem a xilogravura, mas sem estruturação correta de versos e rimas, nem será considerado Literatura de Cordel.


Ed. Moderna - Qual a importância da figura do vendedor de folhetos de cordel, no passado?
R: César Obeid - Como isto está nos dias de hoje? Muito boa pergunta, pois hoje em dia não existe mais o "vendedor de folhetos". O Cordel é vendido em feiras de artesanato, aeroportos, lugares turísticos, etc. Aquele vendedor de cordel de feiras que parava a história para o público comprar, não existe mais. Mas deveria ser algo muito interessante de se presenciar, uma literatura vendida em feiras livres! Fantástico! Hoje esta técnica é utilizada nas escolas para o estudante "vender" a sua história ele tem que utilizar o corpo, a voz e as emoções para convencer seu "comprador".


Ed. Moderna - Nos desafios repentistas a viola é um instrumento muito importante, explique por que?
R: César Obeid - Na verdade, mais importante do que a viola, são os versos, as rimas e as estrofes. Muitos repentistas não tocam muito bem viola, dão somente o acorde tradicional entre as estrofes, mas a preocupação com as rimas, com os temas e conteúdos, é constante. A viola dá o acompanhamento para os versos improvisados. Mesmo assim muitos repentistas, sem a viola, não conseguem fazer nenhum verso, pode?


Ed. Moderna - Para encerrar, qual a sua opinião sobre - O cordel no mundo moderno e sua sobrevivência no futuro.
R: César Obeid - A literatura de cordel já está no mundo moderno, faz parte, é aceita, estuda, produzida e consumida, não há dúvidas. Não somente o cordel, mas quase toda manifestação de cultura popular utiliza-se dos meios de comunicação e segue em frente. O rádio, o jornal e a internet são aliados do cordel! Eu não conheço nenhum jovem cordelista ou repentista que não se preocupe em estudar, em concluir a sua faculdade, pesquisar diversos temas, etc. Se o artista popular é um representante da sociedade em que vive, ele tem que seguir com as mudanças. É uma pena que ainda muitas as pessoas, por falta de informação, considerem o cordelista ou o repentista como um cego analfabeto, pedindo esmola no meio de uma feira.


Ed. Moderna - Agora precisamos da sua inspiração: gostariámos de um verso de cordel em comemoração ao mês da Cultura Popular Brasileira.
R: César Obeid - A Cultura do povo está presente Nas escola, no sítio e na cidade O cordel ou o verso de repente Não está fora da sociedade Não tem mais cordelista iletrado Repentista que canta embriagado É melhor assumir que está mudado E passar para os outros a verdade. Esta é uma modalidade criada pela dupla "Os Nonatos", poetas consagrados que residem na Paraíba. É uma estrofe de oito versos decassílabos... Quero dizer que, em agosto, vou lançar um livro muito especial "O Cachorro do Menino" que trata sobre a inclusão através de uma história inédita de um menino e seu cão deficiente. Um abraço cheio de paz, rimas e alegrias, César Obeid