Professora Bruna Scrivanti
brunascri@gmail.com

 

 

 

LITERATURA DE CORDEL: INTERDISCIPLINARIDADE EM SALA DE AULA

 

Drª. RAIMUNDA B. BATISTA[1]

BRUNA B. S. SANTANA[2]

 

RESUMO

 

O estudo teve como objetivo desenvolver um trabalho interdisciplinar, buscando resgatar a literatura de Cordel, mais conhecida no Nordeste brasileiro, e divulga - lá junto aos alunos do ensino fundamental da rede pública da cidade de Londrina. Considerando que esta modalidade de cultura se apresenta de várias formas, oral, escrita, declamada e cantada, entende-se que ela apresenta inúmeras possibilidades pedagógicas. Neste sentido o trabalho proposto se deu em duas etapas. A primeira etapa composta por estudos bibliográficos, contextualização e caracterização do objeto. A segunda etapa composta por aplicação prática, com realização de oficinas junto aos alunos da 3ª e 4ª séries do ensino fundamental da Escola Estadual Newton Guimarães. Nestas oficinas foram abordadas diferentes perspectivas e possibilidades da literatura de cordel. A principal intenção do estudo era possibilitar aos alunos um mergulho literário, em um mundo repleto de personagens, ritmos, temas, imagens, rimas entre outros. Temas estes vindos de uma modalidade da literatura popular que pode ser muito bem aproveitado no âmbito pedagógico. Levar o Cordel para sala de aula implica em mostrar a vitalização do gênero cultural como ferramenta para didático na educação.

 

Palavras chave: Interdisciplinaridade/ Literatura de Cordel

 

Introdução

 

O ponto de partida que orienta a construção deste projeto de pesquisa, baseia-se no desenvolvimento de atividades interdisciplinares que promovam tanto a aprendizagem de conteúdos significativos quanto a aproximação dos alunos à cultura popular. Para tanto, se tornou necessário que fossem realizados estudos sobre Literatura de Cordel e suas diferentes perspectivas. No campo prático buscou-se realizar atividades onde o educando pudesse se submeter a um mergulho literário, em um mundo repleto de personagens, ritmos, temas, imagens, poesia, rimas, entre outros. Temas estes vindos de uma modalidade da literatura popular que permitiu inúmeras possibilidades, sendo muito bem aproveitada no âmbito pedagógico. A proposta surge para que esta forma cultural pudesse ser apresentada e reconhecida pelos educandos no ensino fundamental, em qualquer que seja seu nível intelectual, tendo como plano de fundo o resgate da cultura popular.

 

Levar o Cordel para sala de aula implicou em mostrar a vitalização do gênero cultural como ferramenta para didática na educação. Neste sentido, nos propomos a investigar, aplicar e avaliar o Cordel como ferramenta de trabalho pedagógico, estabelecendo um elo entre os educandos e a cultura popular brasileira por vezes inexistente na educação.

 

Os trabalhos foram desenvolvidos de forma a estabelecer a motivação em relação a esse aspecto da cultura popular e organizar todo um processo de aplicação e estímulos em direcionamento ao fator principal, que é a apresentação, reconhecimento da origem e fruição da Literatura de Cordel.

 

A pesquisa proposta mostrou-se de suma importância, tendo em vista que os valores culturais foram transmitidos e o processo de ensino e aprendizagem de conteúdos foi privilegiado. Através dos conteúdos pré-estabelecidos sobre a Literatura de Cordel, os alunos tiveram a oportunidade de construir conceitos e fundamentos, com os quais se familiarizou com esta modalidade literária e estabeleceu vínculos com as diversas formas de cultura.

 

Outro fator muito importante a ser registrado é a contribuição deste estudo para demais áreas em educação. A literatura de cordel permitiu o estabelecimento da interdisciplinaridade com áreas como: artes plásticas, música, teatro, língua portuguesa, história.

 

Metodologia

 

A pesquisa foi desenvolvida em duas etapas. A primeira etapa foi composta por estudos bibliográficos os quais tiveram como objetivo o resgate histórico da literatura de cordel e a forma como ela vêm sendo aplicada na educação.

 

Na segunda etapa, foi realizado um estudo de caso, no qual se desenvolveu um projeto com alunos de 3º e 4º séries do ensino fundamental da Escola Newton Guimarães na cidade de Londrina – Paraná  . O projeto foi aplicado em oficinas que com duração de 15 dias nas quais foram trabalhados diferentes aspectos da literatura de Cordel.

 

Para efeito didático o trabalho foi dividido em três momentos distintos:

 

1º Fruição – O contato inicial dos educandos com os folhetos, suas imagens formas e origens.

 

2º Desenvolvimento – Foi o trabalho de contextualização sobre cultura e a iniciação gramatical dentro dos aspectos de estruturação da literatura de Cordel.

 

3º Momento de produção no qual os educandos desenvolveram sua própria escrita, utilizando-se dos recursos literários do Cordel que a ele foi passado.

 

Conhecendo a Literatura de Cordel

 

O Cordel iniciou-se na Europa no século XVII e por ter uma forma editorial de baixo custo que atingia várias classes tornando-se acessível á grande parte da população. Era vendido em feiras e ainda é no Brasil, e seus autores o cantavam ou declamavam tornando o folheto mais atrativo.

 

Segundo Linhares:

 

 

A literatura de Cordel teve sucesso, em Portugal, entre os séculos XVI e XVIII. Os textos podiam ser em verso ou prosa, não sendo invulgar trata-se de peças de teatro, e versavam sobre os mais variados temas. Encontram-se farsas, historietas, contos fantásticos, escritos de fundo histórico moralizantes, etc., não só de autores anônimos, mas também daqueles que, assim, viram a sua obra vendida a preço, como Gil Vicente e Antônio José da Silva, o Judeu. Exemplos conhecidos de literatura de Cordel são histórias de Carlos Magno e os Doze Pares de França, A princesa Magalona, histórias de João de Calais e A Donzela Teodora. (LINHARES, Thelma R. S. 2006)

 

 

 O Cordel se desenvolveu em outras partes do mundo, tornando-se assim uma literatura articulada de formas diferentes. Na França este fenômeno é denominado de “Litterature de Colportage” que eram carregadas nas mochilas entre outras coisas, tais como jornais, enfeites femininos, entre outros sendo uma literatura volante de forma dirigida ao meio rural. “Já nos meios urbanos os franceses divulgavam essa literatura nos Jornais de Sátira, populares ou denominados “Canard”“. Em outras regiões como Inglaterra, Holanda e Alemanha, o Cordel era semelhante àqueles nordestinos, eram também iguais na forma literária escrita na visual e suas capas traziam xilogravuras que fixavam aspectos do tema tratado.

 

O Cordel no Brasil chegou através dos colonizadores, em folhas esparsas e até mesmo em manuscritos. Só após algum tempo, com o aparecimento das tipografias no fim do século passado, a literatura de Cordel se fixou no nordeste brasileiro. Afirma-se também que muitos folhetos vieram de Portugal na memória dos portugueses que os decoravam e chegando ao Brasil, os transmitiam de forma oral repassando assim a cultura.

 

A literatura de Cordel chega ao Brasil trazido pelos portugueses e permanece até a presente data no nordeste brasileiro e em outras regiões do país, tomando a forma de uma literatura confeccionada pelo povo e para o povo, com características próprias, possuindo seus próprios clássicos e mestres. Uma importante e fundamental afirmação sobre a literatura de Cordel se deu em forma de indagação ao professor Raymond Cantel, da Sorbonne, um grande estudioso da literatura, quando ao mesmo questionou-se o Cordel, dizendo que se tratava de uma poesia narrativa e impressa. A resposta era que além de tudo o que havia sido citado, o Cordel se tratava de uma literatura “POPULAR”.

 

A partir daí podemos conceituar a Literatura de Cordel como: Poesia narrativa, poesia popular e poesia impressa.

 

A combinação de utilizações da oralidade da forma impressa e de forma declamada pelos folheteiros, possibilitou o acesso e a admiração da Literatura de Cordel não só pela massa semi-analfabeta ou analfabeta, como também pelos estudiosos que participam de congressos, palestras e se interessam pela realização desses estudos, pois reconhecem a riqueza existente nos folhetos e a cultura que não pode ficar à margem.

 

Relato de uma experiência interdisciplinar

 

Diante da falta de integração entre as diversas manifestações culturais e a própria educação, que por vezes deixa de abordar ou aborda de maneira insignificante tais manifestações, percebemos a necessidade de desenvolver um trabalho que propiciasse aos alunos das séries iniciais do ensino fundamental a construção de referências sobre a cultura popular brasileira. Aliado a esta constatação, também se acrescenta a necessidade de aprendizagem de conteúdos específicos das diferentes áreas do conhecimento por parte dos educandos, as quais precisam ser supridas. Neste sentido buscou-se por meio da utilização da Literatura de Cordel em sala de aula satisfazer tais necessidades.

O trabalho foi realizado junto a um grupo de 73 alunos da 4ª série do ensino fundamental de uma escola da Rede Pública Estadual no Município de Londrina. As atividades foram realizadas em três etapas. A etapa inicial proporcionou aos alunos a descoberta da Literatura de Cordel, sua origem fora do país e suas raízes históricas no contexto brasileiro, bem como os motivos pelos quais esta literatura permanece até os dias atuais tão desconhecidas da população em geral, em especial dos próprios alunos, pois a grande maioria nunca havia sequer ouvido falar da existência deste tipo de literatura.

 

Esta etapa foi denominada de fruição, além de proporcionar um momento de descoberta significativa aos alunos no que se refere à contextualização histórica, também proporcionou uma experiência de uso dos diversos sentidos. O contato direto com as obras, os chamados folhetos, levou os alunos à ver, sentir, ler e ouvir a Literatura de Cordel, pois esta além de ser uma escrita poética é tradicionalmente declamada e cantada. Esta atividade foi primordial para a continuidade do trabalho, o prazer proporcionado por esta fruição, estimulou a curiosidade dos alunos motivando-os a buscar maiores conhecimentos sobre literatura até então desconhecida.

 

A segunda etapa, a qual denominamos por desenvolvimento,  foi orientada no sentido de proporcionar aos alunos o conhecimento sobre a estrutura da Literatura de Cordel, a qual é complexa e envolve conhecimentos de três áreas, em especial: língua portuguesa, artes e música. Na estrutura de linguagem e musical foram abordados vários aspectos, os alunos trabalharam com rima, verso, proza, métrica, sextilha, septilha, o que para eles era uma grande novidade. Para a compreensão destes conceitos foram organizados dicionários ambulantes e atividades como caça-palavras. Estas atividades também orientaram as composições individuais, e assim cada aluno produziu seu próprio folheto de cordel, etapa que denominamos como produção.

 

Na etapa de produção, os alunos fizeram novas descobertas, conhecendo a xilogravura que é a forma original de ilustração das capas dos folhetos, tradicionalmente esculpida em madeira. Para que os alunos pudessem vivenciar todas as etapas da produção de um folheto, foi necessário utilizar ferramentas adaptadas, de modo a preservar a integridade física dos mesmos, visto que as ferramentas utilizadas originalmente são estiletes de metal com corte afiado.

 

Este trabalho poderia ser caracterizado como um resgate cultural, porém, acreditamos que resgate não seria o termo mais adequado, resgate nos remete a idéia de trazer algo de volta ao seu lugar, ou como definido pelo dicionário de língua portuguesa Aurélio, sinônimo de “restituir”, o que significa “Fazer voltar ou retornar” (FERREIRA, 1993), o que não foi o caso, pois até então, a Literatura de Cordel, assim como outras formas de expressão da cultura popular, não foi introduzida no contexto escolar. Como no momento nosso objetivo é apenas relatar uma experiência interdisciplinar com o uso da Literatura de Cordel, não nos aprofundaremos nesta discussão, porém, a menção se faz no sentido de tentar caracterizar o trabalho desenvolvido, no aspecto da aprendizagem, ou seja, por parte do aluno, como um momento de descoberta. Por outro lado, é sempre importante ressaltar, que a sociedade contemporânea não valoriza a cultura popular, deixando-a à margem do processo educativo, mascarando por vezes, sua riqueza, riqueza esta  perdida no tempo e no esquecimento.

 

 REFERÊNCIAS

 

ADORNO,Theodor.(1995) educação após Auschwitz.In: ADORNO, Theodor W.  Educação e emancipação. Rio de Janeiro: Paz e terra, pp. 119-138.

 

ARAUJO, A.M. et al Cordel e comunicação. São Paulo: USP, 1971.

 

BATISTA,A. Literatura de cordel: antalogia. São Paulo: Global,[19--]. V.2

 

BATISTA,S.N. Antologia da literatura de cordel.[S.1.]: Fundação José Augusto, 1997.

 

BOSSI. Alfredo. (org). Cultura Brasileira. Temas e situações. Séries Fundamentos. 4 ed. 5ª imp. Gráficas Palas Athena. São Paulo. 2004.

 

CHAUÍ, Marilena. Cultura e Democracia: o discurso competente e outras falas. 11 ed. Ver. E ampl. São Paulo: Cortez, 2006.

CHARLOT,Bernard.2002.Formação de professores: pesquisa e política educacional.In: PIMENTA, S.G. e GHDIN,E (Orgs).2002. Professor reflexivo no Brasil: gênese e crítica de um conceito. São Paulo: Cortez, p 89 - 108

CURRAN, Mark J. A literatura de cordel: Antes e Agora. (http://www.cervantesvirtual.com/index.shtml. Consultado em 25/08/2006)

 

 

DUARTE, M.F.et al. Literatura de cordel. São Paulo: Global, 19-. V.. 1e 2.

 

FAUSTO NETO, A. Cordel e a ideologia da punição. Petrópolis,Vozes, 1979.

 

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda, 1910-1989. Minidicionário da língua portuguesa. 3ed. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993.

 

LIMA, E. O. L. Folhetos de Cordel. João Pessoa: Ed. Universitária, 1978.

 

LIMA. Ariovaldo Viana (org.). Acorda Cordel na Sala de Aula: A Literatura Popular como ferramenta auxiliar na Educação. Fortaleza. Tupynanquim Editora. Queima Bucha, 2006.

 

LINHARES, Thelma R. S. A história da Literatura de Cordel. (disponível em: http://www.camarabrasileira.com/cordel101.htm. Acesso em 8 mar.2006.)

 

LOPES, R. Literatura de Cordel: antologia. 2 ed. Fortaleza: BNB, 1983.

 

LUYTEM, J. M. O que é Literatura popular. São Paulo: Brasiliense, 1983.

 

MEYER, M. Autores de Cordel. São Paulo: Abril Educação, 1980.

 

MIZUKAMI, Mª da Graça Nicoletti. Ensino: As Abordagens do Processo. Editora Pedagógica e Universitária. São Paulo. 1986.

 

PILLAR, Analice Dutra. Fazendo artes na alfabetização. 2 ed. / Analice Dutra Pillar. – Porto Alegre : Kuarup, 1987.79p.; 16x23cm, - (Série Alfabetização ; 2).

 

PINHEIRO. Hélder. LÚCIO, Ana C. M. Cordel na sala de aula. São Paulo: Livrarias Duas Cidades, 2001. (Coleção literatura e ensino - 2).

 

 

 

 

 

Enviado em 2006:

http://tempodecordel.blogspot.com

 

 

Boa tarde, é com um grande prazer que venho oferecer meu cordel para colocar em seu site. Sou professora e meu projeto funciona da seguinte forma: dou toda iniciação da língua portuguesa, vamos para a poesia e ai então as sextilhas. Para a capa desenvolvo com os alunos a xilogravura , os trabalhos ficam lindos de mais. Apos isso vamos ver também a parte do projeto onde monto softwers educacionais sobre cordel ,os alunos ficam encantados.

 

Xilo: Bruna Scrivanti

 

 

 

 

 

As bolhas do fenômeno e o bambambam do pcc
Autores: BRUNA SANTANA, DIEGO RODRIGUES E JULIANA TEIXEIRA.

 

 

 

 

Ano de copa do mundo
A bola na seleção
A nação sonha sentada
Com a cachaça na mão
Muitos sonhos se afloram
Em frente a televisão.

Sendo a copa uma paixão
Vejam só o que aconteceu
Fenômeno antes da estréia
Uma bolha apareceu
Diante a preocupação
O problema resolveu.

A quem culpe esse período
Por tamanha comoção
Nos dava o noticiário
Uma grande confusão
O PCC em São Paulo
Tremenda
rebelião

O motivo disso tudo
Eu pretendo explicar
Presos na sela queriam
Toda a copa festejar
Entre outros privilégios
O banho de sol tomar.

A copa é dividida
Em oito grupos somente,
Com quatro times em cada
E
cada um bem ciente
Que o jogo é para valer
E não é beneficente.

O Parreira que não venha
De não jogar avançado
Dizendo que não podia
É só falar no quadrado
Quinteto ou triologia
Ficando bem amarrado.

Já avisei o Zagalo
E vou aqui insistir,
Porque se fizer gracinha
Vai ter que me engolir,
Porque eu sou indigesto
E não adianta cuspir.

Para roubar bem a bola,
Parreira, vá ao senado,
Chame Valério e Delúbio
E mais algum deputado,
Mas peça devolvê-la
Para ninguém ser cassado.

A sensação dessa copa
É bom mas não é gorducho
Falo do outro Ronaldo,
Pois cada um tem seu bucho
Mas quem que manda agora
É o Ronaldinho Gaúcho.

Robinho magrelo vá
Pra cima com pedalada
Bem no seu jeito moleque
Batendo uma pelada,
Para o gringo ficar doidão
De forma descontrolada.

Dida mantenha a calma,
Bote a zebra para lá,
Bata o tiro de meta
Pro Adriano ou Kaká,
Para deslocar o goleiro
E a bola pro gol rolá.

Avança bem para cima
Me enche de emoção,
Dispare com muita força
O meu feliz coração
Que eu preparo a garganta
Com bastante devoção.

 

 

 



[1] Coordenadora do grupo de pesquisa Literatura Popular: os folhetos de cordel da Biblioteca Central/UEL; pesquisa, preservação e divulgação.

[2] Mestranda em Educação, Arte e História da Cultura – Mackenzie – Integrante do Grupo de pesquisa Literatura Popular: os folhetos de cordel da Biblioteca Central/UEL; pesquisa, preservação e divulgação.