Artigo: Ivone Rodrigues

 

 

 Cresci ouvindo repente. Meu pai, um grande admirador das modas de viola,  e um grande talento na viola que possuía, me fez presenciar várias cantorias na sala de minha casa. Apesar de me aborrecer tantas vezes com essa barulheira toda, não imaginava que, no meu subconsciente, aquilo era "alimento".  De alguma forma teria que ser útil para mim, em algum momento, senão, qual a necessidade dessa experiência?

     O universo da cultura popular sempre mereceu minha atenção, a começar pelas manifestações teatrais. Através do teatro conheci várias modalidades de cultura popular, principalmente as que estão focadas em tradição, passadas de pai pra filho, de geração a geração. Foi daí que conheci  a literatura de cordel e a poesia repentista.

 Não imaginei que mesmo sendo tão quase próxima desse universo, fosse aprender tanto. Uma das coisas que aprendi, e acho maravilhoso,  é o elo tão importante entre  todas  as  manifestações  culturais: a oralidade. Tudo está ligado entre si através da forma como é contada, falada  ou cantada. O cordel é vivo enquanto dito, contado. Não tem vida se ficar no papel. É veículo de informação, e até método de alfabetização. O repente é para ser cantado, improvisado, ali, na hora. Só existe enquanto improviso, senão é canção. A peleja é forma de oralidade. É o desafio do cantador, pra ver quem rima melhor, quem agrada mais o público. A arena dos cantadores. Esse é o brilho.

   Mas, cantador é um "bicho" engraçado. A começar por aquilo que chamam de "dom". Dom para alguns é aquilo que já nasce junto. A liberdade de criar, fazer rimas, versejar sem censura com o talento que Deus deu. E isso ninguém lhes tira da cabeça. Só que para fazer algo é preciso que você já tenha visto alguma vez, em algum lugar, alguém fazendo, no mínimo. Os cantadores também cresceram ouvindo tudo isso. É o universo deles. Senão o pai, o tio, ou algum vizinho que sempre era presenciado cantando. Rimar metrificado não é fácil. Sei que não é. Mas o que não se aprende com um pouco de conhecimento e treino? Mas entendo porque colocam como dom. É para ser imortais. Mitificados e envolvidos por algo que não se explica. A necessidade do homem de se tornar divino. Tudo é uma questão de fé e tradição.
Esses poetas violeiros vieram para a capital se restabelecer. Afirmar sua cultura através da resistência. A cultura popular sobrevive através da resistência, que não se deixa deteriorar, poluir. O nordestino é um povo puro, e é isso que me atrai. E não é ingenuidade não! Tenho presenciado que é muito importante, sempre, se afirmarem como sociedade culturalmente produtiva. Os nordestinos são os menos influenciados pela cultura européia ou americana. Pena que não podemos dizer o mesmo de seus filhos. Mas é fato, também, que os artistas populares, também se apropriam da cultura externa. É quase impossível que isso não aconteça numa sociedade onde as relações econômicas estão cada vez mais internacionalizadas. Assistem televisão, lêem jornal, e isso não os faz perder a garra, o senso crítico e satírico.
Me sinto como um mediadora e colaboradora dessa cultura. Os repentistas estão muito felizes porque alguém está interessado em ouví-los. Não querem mais tocar e cantar nas ruas por alguns trocados em moedas. Querem ser profissionais, pagos, contratados e tratados como pessoas que contribuem muito pela cultura do país. Estão pensando mais alto pra si. Instituições como o Banco do Brasil, têm acolhido esses artistas, cumprindo seu papel de incentivador e propagador da cultura brasileira, e isso deixa muita gente feliz. Mas, ainda assim, outro dia, numa apresentação no Projeto Entorno do Centro Cultural, um violeiro me aparece com uma corda amarrada na viola, o que seria, a cinta do pescoço. Questionado por mim sobre aquele aparato tão rústico, ele respondeu: É tradição, é assim que se usa na minha terra...
 É a forma pura de resistência.